Sua filha viu um fantasma andando pela sala da casa no meio da noite, o que você faz? Diz alguma coisa como “que bobagem, fantasmas não existem”? Ou a incentiva a desenvolver melhor a história?


Pois é, esse post sai em defesa da mentira e do porquê ela é importante no processo de desenvolvimento das crianças. Quando seu filho conta uma mentira, na verdade, ele está criando ficção!


Escritores contam mentiras o tempo inteiro. Inventam personagens, situações, mundos povoados por dragões, elfos e toda sorte de criaturas fantásticas. Ajudar seu filho a contar boas mentiras significa ensiná-lo a contar boas histórias.


Sabe o John Green, autor daquele livro, você já deve ter ouvido falar… “A culpa é das estrelas”?


No vídeo abaixo, ele lê algumas das suas primeiras histórias, aquelas do tempo em que, segundo o próprio, era um “mentiroso patológico”.


Depois de ter supostamente visto um elfo sair do botão de sua camisa, ele correu pra contar a novidade à mãe, e recebeu um olhar de descrença e uma negativa: “elfos não existem.” O jovem John ficou decepcionado por não terem acreditado nele.


Como, então, deveríamos reagir?


O escritor coreano Young-ha Kim dá outro belo testemunho numa TEDx falando sobre como todos nascemos artistas. Pouco a pouco, no entanto, vamos matando nossas fagulhas criativas. O que ele propõe: que sejamos artistas. Agora. E que incentivemos nossas crianças a perseguirem suas próprias aspirações.


E aí, quer saber como extrair “mais elfos” dos seus filhos? Vamos às dicas!


1 - Sim e…


A regra para escrever é simples: uma frase vai depois da outra de forma que a seguinte faça sentido em relação à anterior. “Sim, e…” é uma das primeiras lições que comediantes aprendem na hora de criar cenas de improvisação. Se um ator começar a negar as situações criadas pelo outro, é impossível a cena tomar forma. Por isso, pergunte sempre: sim, e…


… o que aconteceu?


… o fantasma conversou com você?


… você teve medo?


2 - Cheiros, sons, gostos e texturas


Experimentamos o mundo através de todos os sentidos, muito embora a visão apareça com destaque na maioria das obras de ficção. Tente fazer perguntas que envolvam cheiros, gostos, sons e texturas para ajudá-la a criar situações complexas. Estudos do cérebro explicam que, assim, é possível envolver o público num nível visceral além do intelectual.


No caso do fantasma, um exemplo seria:


“Você ouviu algum som antes de ver o fantasma?”


“Vocês tentou tocar no fantasma?”


3 - Ação e reação


Narrativas são formas de arte que se movimentam ao longo do tempo. Personagens agem e reagem às situações. Isso faz a história avançar. A dica é tentar imbutir esse senso de casualidade dos eventos.


O fantasma fez alguma coisa?


Como você reagiu?


4 - Não tão fácil...


Toda história tem conflito. Se um personagem não quer nada, nada fica no seu caminho e ele sequer tem bons motivos para praticar qualquer ação.


Aqui vale perguntar:


O que o fantasma queria?


E você?


5 - A moral da história


Mesmo que a narrativa tenha inconsistências, a audiência pode se manter presa se a história passar uma mensagem clara. Você pode chamá-la de “moral da história”.


Por fim, resta a pergunta:


O que você aprendeu com isso?


***


Claro que tudo na vida precisa de bom senso, né? Ninguém melhor que você, pai, para saber quando a criança passa dos limites e inventa histórias que prejudicam alguém. No mais, divirtam-se!


Melina França é escritora.


A Infanti incentiva leitores a compartilharem suas histórias. As opiniões publicadas neste texto são pessoais e não necessariamente representam a visão da Infanti.